14 janeiro, 2007

Exagero


Quando piso, o chão treme e, quando abro a porta, o trinco faz um movimento forte, barulhento, anunciando minha chegada. Quando falo todos ouvem, até quem não precisa ou não deve e quando minha alma fala os olhos e a feição transbordam de mensagem, transparente, gritante. Quando estou triste sou triste mesmo, choradeira profunda, mundo cinza, dor, melodia desesperada ou mesmo fúnebre. Quando alegre, não consigo caber em mim, preciso falar para alguém. Odeio assistir show sozinha. Odeio quem fica falando durante o show ou o filme do cinema, mas detesto sair com quem não comenta nada, com quem não tem necessidade de discutir, de comentar, de deixar escapar aquela exclamação, aquele êxtase. Ouço música e aprecio as artes no coletivo: minha alma mais as das pessoas que amo. Um defeito, talvez. E quando canto, bem, quando canto sou puro exagero. Não tenho técnica, não consigo. Abdomen, respiração, céu da boca, sim, o bendito céu da boca, sei de tudo isso, sei que preciso saber, mas não consigo. Canto no gogó mesmo, por isso estouro a voz a cada final de noite. Bem que tento fazer diferente mas, quando vejo, tá tudo ali, na minha laringe, veias inchadas, pescoço tenso, teso, tentando deixar sair o som e, contraditoriamente, atrapalhando sua passagem.
Ontem acabei de novo com a minha voz. Ela ficou pequenina, quase inexistente depois que cantei por quase quatro horas. Talvez uma despedida: não sei quando e nem como vou poder cantar de novo, agora que me preparo para uma nova aventura, uma nova fase da vida. Mas, mesmo que não cante mais (e, espero, isso não aconteça) lembrarei sempre da intensidade, do gogó inflamado, gritando todas as minhas angústias, as minhas emoções. Lembrarei de alguns rostos alegres me olhando, lembrarei dos aplausos, dos outros e os meus, a cada música vencida, a cada nota executada, a cada vitória musical. Lembrarei com carinho dos olhos marejados do meu pai ao cantar um samba comigo, do balanço malandro do violão dele, e do êxtase que é dialogar musicalmente com o outro, sem palavras, só notas e aquele olhar de aprovação depois de uma frase bonita, de um improviso feliz. Isso é impagável. Como é bom poder tocar um instrumento né seu Caetano Veloso?
Sou um exagero, só posso chegar a essa conclusão. Tudo em mim exagera, esbanja, enlouquece. Azar ou sorte de quem estiver por perto.

6 comentários:

Bruno Ribeiro disse...

Claro que é sorte. Clara Nunes dizia que o samba só lavava sua alma quando ela chegava em casa afônica e, não raro, vertendo sangue pela garganta. A emoção na música é tão importante - ou até mais importante - do que a técnica. Pelo menos nesse país!

Ricardo disse...

cantar é mover o dom de uma paixão, diria djavan, melhor do que eu poderia dizer... mas não fique sem cantar, cante pelo menos para si, ouça-se, sua melhor platéia, pode até ser a meia-voz para não arranhar a garganta, mas canta que quem canta seus males espanta... ah se eu tivesse voz para tanto.

Ronaldo Faria disse...

Bom te descobrir por aqui. Cuide-se, menina linda. Cuide dos seus sonhos, das suas angústias, dos seus medos e vitórias. E creia em si e na ilusão de crer em si. Mudar é difícil mesmo. Mas é o único jeito de nos redescobrirmos e recomeçarmos, tentando minimizar erros do passado e do presente, ampliando o horizonte do futuro naquilo que pode sê-lo, ou não. Cuide-se! E mostre a Sampa o quanto és. Por maior que seja a cidade, maiores são os caminhos e curvas. E todos dão em algum lugar novo e instigante, às emoções e a voz...
Beijos, do carioca Ronaldo Faria. Do interiorano José de Souza.

JP disse...

Sorte Pura! Vivi muitos momentos musicais felizes com você! E tenho a certeza de que dividiremos muitos outros momentos transbordantes de sons e emoções intensas!
Minhas cordas e sua voz ainda tem muito o que soar po aí!

Beijo Grande!

Ronaldo Faria disse...

Menina, sobre o Tom, três coisas:
1) Conheci a Lígia, da música. Era professora de cursinho, onde estudava a Sandra, uma menina que eu namorei no Rio. E a Lígia era linda. Mereceria qualquer música. Uma morena para se andar do Leme ao Leblon e esquecer-se no piano.
2) Fui apaixonado, platonicamente, por uma das meninas do Tom: a Maúcha Adnet. Ela era do Céu da Boca, um grupo formado na Pró-Arte, do Rio. Vi esse grupo ser formado, fui aos primeiros shows deles no Teatro Ipanema. O Paulo Malaguti, o nosso Paulinho Paulera, era meu colega de infortúnio na PUC-RJ. E regente do Céu da Boca, namorado da Maúcha. Hoje ele é o líder do Arranco de Varsóvia. Um grupo vocal ímpar. Ela, não sei... Depois do Tom, acho que acabou ficando de vez em Nova York. Ela é irmã de um gênio pra mim, o Mário Adnet, de quem tenho tudo, e da Miúza Adnet, uma cantora fantástica. E do Chico Adnet, que era do Céu da Boca. Uma família fantástica. Outra que era uma das meninas do Tom, do coral dele, era a Paula Morelembau. Também integrante do Céu da Boca. Outra do Céu da Boca, de quem também eu tenho tudo, mas não cantou no coral do Tom: Verônica Sabino. Tempo bom. Do Rio. Do Asdrúbal Trouxe o Trombone nos pilotis da PUC, com Luiz Fernando Guimarães e a louca da Regina Casé, além de Perfeito Fortuna. E o Fausto Fawcet, para quem votei no último ano de PUC, para o DA de Comunicação, com a sua chapa Delírio, que propunha departamentos de Fumo, Cachaça e Sexo. Tempo bom... Perdeu para uma chapa do iniciante PT... Poderia ter ganho. E evitaria uma decepção no futuro.
3) Curto o Tom além da conta. Tenho quase tudo dele. O vi nos palcos. Não convivi com ele, infelizmente. Mas serei, como disse, vininho dele, do Vinicius e do Cazuza quando for para o condomínio fechado do São João Batista, no meu Rio. Mas, até lá, estou por aqui: aprendendo e apanhando, lendo e escrevendo, aprendendo. Sempre aprendendo. Até quando der. Cuide-se! E cante! sempre...
Ronaldo

Tatiana disse...

Papo brabo!
Você vai cantar muito e sempre, minha querida.
Deixe de coisa.
Tudo é uma fase!
Mas exagerada que eu?
Avá!
E to aqui!
Você canta para caraleo e continuará assim sempre.
Tudo é nervoso e ansiedade.
Já já passa.