17 janeiro, 2007

Falando de amor num choro bandido


Casar. Têm me perguntado muito quando eu vou casar. Não sei que mania essa que as pessoas têm de fazer determinado tipo de pergunta em determinada fase da vida da gente. É como se tivéssemos uma espécie de cronômetro na testa informando a idade, ou uma espécie de termômetro, algum tipo de medidor que indicasse o nosso grau de maturidade, a temperatura do relacionamento que estamos vivendo, se estamos passando ou não do ponto. É como se houvesse uma hora certa para casar, outra hora para ter filhos, outra para se aposentar. Fugimos tanto da rotina, dos rótulos, dos comportamentos comuns, e ao mesmo tempo nos pegamos seguindo todas estas regrinhas. Ta, é bem verdade que chega uma hora que essas idéias passam sim pela nossa cabeça. Primeiro o que queremos é ser gente grande para poder fazer coisa que gente grande faz, desbravar o mundo, fazer coisas que somente estando sós e nos sentindo donos do mundo podemos fazer. Quanta ilusão, quanta burrice essa. A infância é a melhor parte, quando, aí assim, podemos ser tudo. Depois crescemos. Daí temos que ir vencendo as etapas de conquistas que nos são impostas: é prioritário conseguir o primeiro namorado, se não você é feia, passar no vestibular, se não você é burro, conseguir ganhar dinheiro, se não você é fracassado. Quando era criança, dizia que ia morar no Rio de Janeiro – acho que por pura influência da minha mãe, uma devoradora de livros, de história e de sambas -, que ia cantar no grupo do Tom Jobim, que ia fazer uma faculdade, ganhar dinheiro e, quando tivesse uns 25 anos iria me casar com um príncipe encantado, constituir família. Isso para mim seria o sinônimo de uma vida bem sucedida. Como se fosse possível fazer tudo isso ao mesmo tempo e em tão curto período. Quanta ilusão: praticamente 50 anos em 5 né, estar totalmente realizada, acabada, construída, aos 25 anos. Quando mais novos pensamos que a gente é uma construção que acaba quando, na verdade, somos daquele tipo de reforma que nunca tem prazo para acabar. Vai sempre surgindo um detalhezinho aqui, um acertinho acolá. Quando mexemos numa parede, a outra cai, e daí tem que colocar outra janela, tentar abrir outra porta...
Mas voltando à história do casamento, nunca tive sonhos de casar de véu e grinalda, e já passei dos 25 anos. Portanto, já expirou o prazo que eu havia dado para mim. Mas essa idéia, tão pequeno-burguesa, tão banal, tão “quadrada” passa sim, pela minha cabeça. Passou uma vez, com muita força, foi embora. Agora vira e mexe ela volta. Ao mesmo tempo, não consigo me ver nesta situação. Me vejo tão solta no mundo, com vontade de pega-lo com a mão, conhece-lo, e isso pressupõe um pouco estar sozinha, aberta a possibilidades. E tem ainda a questão do amor, que não se basta. Amor, palavra essa que pode significar tantas coisas diferentes e que já foi tantas outras mais para mim. Mais do que amar é preciso querer que os ponteiros de duas pessoas girem juntos, ou pelo menos pertinho um do outro, numa só direção. E isso é a parte mais difícil de todas e começa nas pequenas coisas. É preciso não ter medo de ser engolido pelo outro, pelas vontades do outro, pelas idéias do outro. E aí começam as incompatibilidades. Quando encontramos alguém bacana demais, esse alguém sempre vai ter algo chato demais, insuportável demais, sempre. E daí vc tem que ver se onde ele é chato não é exatamente no que lhe é essencial. Daí tem os problemas práticos: a pessoa tem que estar no mesmo lugar e hora que vc, na mesma sintonia e a fim de abrir mão de coisas, sem achar que está abrindo mão de si mesmo e sim que está ganhando algo. E isso é mais complicado ainda. O amor e o individual são duas coisas que não concatenam. Meu Deus! Só mesmo o homem, ser egocêntrico, para tentar fazer essa mistura maluca e achar que ela dá certo – e de tanto acharmos isso, às vezes até acreditamos que ela dá mesmo certo.
E nessa história toda entram outras coisas e uma delas é o chamado vil metal. Ah, ele está no meio de tudo e a história de um amor e uma cabana, realmente, não dá certo. Longe de mim querer dar o golpe do baú, não por moralismo, mas porque não teria estômago e não concebo me relacionar com alguém com quem não tenha um pingo de vontade de estar perto. Mas hei de convir que qualquer conversa, por mais romântica que seja, qualquer plano, por mais sentimental que seja, começa ou termina na tal da verba. Vamos no cinema? Vamos morar juntos? Vamos passear, viajar, ter filhos? Até para sonhar precisamos contar moedas, notas...Isso cansa qualquer amor. Não há romantismo que agüente à total falta de perspectiva. Não há noite romântica que sobreviva a esse tipo de encucação a todo momento.
Isso tudo, é claro, não tem nada a ver com a poesia do amor. Sim, apesar de tudo, e deste texto em tom meio pessimista, acredito que essa tentativa humana, ou melhor, essa insistência humana em tentar fazer com que dois universos girem em torno de uma única idéia, de contigüidade, é uma estupidez das mais belas, das maiores aventuras a que poderíamos nos arriscar. É por isso que, mesmo achando que finais felizes são falsos ilusórios e, mesmo sabendo que estou caminhando para o precipício, eu os continuo buscando, caminhando ribanceira abaixo, amando. Afinal, a busca, por si só, é que é válida, e nela vivemos pequenos momentinhos de castelo de areia, de conto de fadas, de príncipes e princesas. Por isso amo. Não se deixar levar por essa doce ilusão seria viver pela metade. E isso, como bem disse minha querida amiga Tatiana Rocha, é uma merda.

“Mesmo que os romances sejam falsos como o nosso, são bonitas, não importam, são bonitas as canções”

4 comentários:

Ronaldo Faria disse...

Casar é bom. Descasar também. E buscar-se. E sempre buscar. Há tempo para tudo. Afinal, o ser humano não é eunuco. Muita calma nessa hora. E saiba: não há idade para se casar. E o fiz aos 29 e, 21 anos depois, saí. Não há data e nem tempo. mas tem que haver dois, de verdade, integralmente, em paixão e tesão. O dinheiro acaba vindo junto...
Descobri a Maúcha: ela está em Nova York, morando com um baterista chamado Duduka e lançou um CD com músicas do Tom, com arranjos do Mário. Resolvi importá-lo. Nunca paguei tão caro por um CD (só nas coleções do Noel Rosa e Paulo Vanzolini). Mas, fazer o quê: a vida é feita também de loucuras. Cuide-se!
Ronaldo Faria

Wanderley Garcia disse...

"Quando mais novos pensamos que a gente é uma construção que acaba quando, na verdade, somos daquele tipo de reforma que nunca tem prazo para acabar." Adorei. Ajuda a compreender bastante. Ou será que somos o que era pra ser uma construção? mas falta a danada, a verba. Aí a gente se muda pra dentro de nós mesmos e vamos vivendo, tentando acabar a casa, que nunca fica pronta. Nós construímos uma eterna reforma.
Dá uma olhada em http://proncovo.blogspot.com

Darko Magalhães disse...

Oi Lígia, publiquei isso lá no meu blog, com medo de vc não ter lido, o fiz aqui também...
beijo
darko
***
Oi Lígia
Estou pensando mesmo nisso, ainda estou um pouco inseguro pois também estou trabalhando em cima de outro blog, referente ao meu grupo de teatro, o que me deixa um tanto inseguro ainda....mas estou criando coragem pra isso. Coragem de poeta vadio é cu de rola, como diria nosso companheiro bruno...hahaha
valeu a força linda.
E outra coisa, se tu parar de cantar vai ter carreata, passeata da classe operária mais violenta, as bandeiras serão queimadas em forma de protesto, os balconistas irão nos servir de costas e em algum lugar algum cachorro vai uivar de dor!

Se cuida

beijos

darko

Tatiana disse...

Querida,
Eu não tenho moral nenhuma para falar de casamentos. Sei começar, muitos, vários, mas mantê-los..bem..isso é outro papo.
Mas viver junto, dividir a vida com outra pessoa, aprender a amar os defeitos, ser humanamente chata e previsível, poxa , isso é tão lindo!
É tão enriquecedor.
Nunca vai existir a hora perfeita. Nunca é o momento ideal.
Porque a vida não dá receita, porque a vida não é em folhas de livro, não tem bula e muito menos o amor.
Amor é entrega e loucura.
É precipício, é vertigem, é um mar de incertezas.
Amar um homem inteiro é amar na beirada, um segundo do salto mortal, é entrar no outro e andar de olhos fechados pelo labirinto se sua natureza estranha. Ninguém pode dar ceretzas a outra pessoa. Nem você.
Mas se o coração estremece, tudo vale à pena.
E em algum instante, os ponteiros ficam juntos, em total sintonia.
Eu caso com a certeza que não existe príncipes e que não somos princesas. Somos um bando de pererecas que beijam os sapos mais maravilhosos do mundo.
Teu sapo é encantador e te adora.
Você é uma pererequinha muita da ansiosa e encantadora.
Deixa a vida te levar.
Relaxe!!!
Sorria!
Cante!
Por que tudo há de se ajeitar!