18 fevereiro, 2007

Dia de Magali


Por dois buracos pequenos dava pra ver um mundo diferente, existente, concreto, e ao mesmo tempo irreal. Por dentro da máscara faltava ar, o nariz coçava, o suor escorria, a boca existia só artificialmente, e por isso a minha tinha que se manter fechada, calada, aflita, cantando pra dentro, num tom engasgado de sufoco, de falta de ar e de emoção. É louco se dar conta de que, de repente, por um artifício externo, tão assim, digamos, plástico, literalmente plástico, se é outra pessoa, com um poder surpreendentemente fora do comum. O conteúdo é o mesmo, não há interpretação, não há sorriso, não há lágrima, não há nada. Só o gesto e uma fantasia. Só um rosto que não é o seu rosto, mas passa a ser você.
É mágica a ilusão da máscara. De repente as funções vitais ficam prejudicadas, o ar parece que acabou interinho do mundo, o corpo parece que vai padecer, os olhos marejam, o coração bate fora do compasso, é fisiológico mesmo...Mas ao mesmo tempo, quanta coisa a se ver através de dois buracos pequeninos no rosto, na altura dos olhos! Duas fechaduras por onde se vê um mar de gente. E que incrível: basta abanar a mão, e todos assim respondem, sem olhar para o seu rosto, mas com os olhos fixados na máscara. E a cada beijo, milhões de beijos em retribuição, a cada gesto, uma infinidade de movimentos em resposta. Dos dois buracos que não eram olhos, mas funcionavam como uma cortina aberta, podia-se ver ainda emoções singelas, genuínas, como o rosto negro da porta bandeira riscado por dois cursos d´água, dos olhos até o queixo, descendo marcantes sobre a face, fruto do anseio por uma vitória, ou apenas do fato do coração ter batido mais acelerado com os rojões e o anúncio do nome da escola no momento de adentrar a avenida. Dois dois buracos que não eram olhos, mas faziam ver, descobre-se o velho que fica criança diante de um boneco, o japonês que se atrapalha com a marcação do surdo, e do repique, e dos tamborins, e dos reco-recos, e das cuícas...
As plumas, as plumas, os silicones e as belezas cruas, a ilusão, a arte como fuga da realidade em milhares de pessoas suadas, correndo, fantasiadas e, assim, escondidas até de si mesmas, fugidas de sua vida rotineira, dos horários, dos compromissos, do senso estético do que é ou não bom ou ruim, bonito ou ridículo...Dos dois buracos vê-se um mundo de faz-de-conta em que tudo pode. Pelo menos dos dois buracos não dá para ver a parafernália que faz com que o genuíno, com que a emoção da porta-bandeira se torne produto à venda. Felizmente, e nesta hora sim é felizmente, a máscara de uma boneca de história emquadrinhos proteje os olhos de certas mazelas....Como os tantos que ficam pendurados feito os brincos das passistas, só que nos muros, nas árvores, nos alambrados, fazendo dali sua arquibancada imaginária para uma festa que se diz democrática, típica da maior brasilidade, extensiva a todo e qualquer cidadão da terrinha tupiniquim. De longe, eles também ouviram surdos, marcando o ritmo da emoção alheia, que não lhes foi dada a oportunidade de sentir. Mas eles teimam e sentem assim mesmo. São brasileiros e não desistem nunca!
Fantasiada de Magali, sim, encontrei-me um pouquinho, por alguns minutos, mesmo nos gestos que não eram meus, nos sorrisos e beijos que não foram para mim. Mas me senti feliz. E saí com um samba enredo grudado na cabeça e mais uma história para contar...
Memórias de um certo desfile, num certo sambódromo, de uma cidade chamada São Paulo, onde acabo de chegar.

2 comentários:

Ronaldo Faria disse...

Como a Magali, teu alimento te devorou. Neste caso, a emoção. Sorva-se dele. Pra sempre. Beijos.

Bruno Ribeiro disse...

Ué, não era a Mônica que tu ia ser? ;-)

Putz, não deu pra eu ver o desfile! Espero que vc tenha gravado pra me mostrar depois...

Que lindo texto, Ligia. Que lindo texto. A emoção é autêntica e isso transparece no que tu escreves.

Beijos.