11 março, 2007

Amigo é pra essas coisas

Ultimamente minha vida pode ser chamada apenas de "processo de adaptação" e, nesta semana, especialmente, eu diria que o bicho pegou feio, feio mesmo, com direito a sermões diários, cacetadas emocionais e questionamentos sem fim. A minha ansiedade está no nível mil, ainda que eu apele para a alopatia a fim de tentar conter a alma. Tá FODA!
Bom, mas como nem tudo são ruínas, tem sempre uma flor no meio das pedras, ali, insistindo em nos fazer brotar, insistindo em nos fazer respirar. Essa flor, quando não cresce de dentro de nós mesmos, cresce por força dos anjos. Sim, existem anjos no mundo e eu acredito piamente nisso muito mais do que em forças ocultas. Acredito no mal mas acredito, principalmente, que existem pessoas boas, de verdade. Felizmente eu tenho várias pessoas boas na minha vida, inúmeras. E duas delas, certamente, são o Rapha e a Taty. Sim, são pessoas do bem e, neste final de semana, especialmente, apareceram para me tirar do limbo de minhas neuroses. E daí que tivemos uma noite de sábado que teria tudo para ter sido pra lá de chata se fosse ao lado de qualquer um, mas com eles todos os desencontros serviram de aperitivo para tornar tudo ainda mais engraçado...

Cenas de um sábado

Cena 1 - A Taty e o Rapha chegam perto do meio dia na minha casa e eu os deixo lá, plantados, sozinhos, porque tenho que ir trabalhar.

Cena 2 - Chego ao trabalho e tenho uma tarde vamos dizer, no mínimo, entediante, enquanto eles me mandam torpedos informando que estavam no bar, tomando cerveja e degustando um bife à parmegiana. Tá, nesta parte não há nada de anjo aí, mas tudo bem, os anjos também podem ser irônicos, estes safadinhos...

Cena 3- Quase na hora de ir embora do trampo, eu levo mais uma ensaboada, acho que a quarta da semana, e saio atordoada, cambaleante pela Avenida Paulista, com os pensamentos todos desorientados e querendo que o mundo pare para que eu desça o mais rápido possível.

Cena 4 - Chego em casa e lá estão Rapha e Taty me esperando para uma cerveja. Eles mais pareciam meus anfitriões do que eu deles, mas tudo bem...Em seguida pego-os para Cristo e faço-os ouvir toda a minha saga de frustações da semana, coroando a minha fala com o ápice do relato: a última ensaboada que levei do meu chefe. Detalhe: tudo que eu não consegui falar na hora que deveria ter falado, eu falei ali, com pompa e fora das circunstâncias para os dois, coitados. Um verdadeiro show.

Cena 5 - Saímos para beber e eu insisto que quero levá-los em um lugar legal, mesmo o Rapha dizendo que deveríamos ir em algum lugar por perto, só para bater papo. Mas eu insisto que quero uma noite pra lá de agradável e diferente e, então, pegamos um buzão e fomos parar em um bar que toca jazz, em Pinheiros

Cena 6 - (aqui começam os desencontros) - O bar está lotado, apinhado, entupido, sem condições de se manter em pé, que dirá sentado. A música vai ser ótima, encontro um batera conhecido, mas...Vamos tentar outras coisa.

Cena 7 - Descemos a Cardeal Arcoverde atrás de um bar, detalhe: a pé. Paramos em uma esquina e eu resolvo ligar para minha irmã para pedir alguma informação turística sobre bares. Afinal, a capial aqui não conhece a noite paulistana, mesmo porque, ultimamente eu só trabalho e durmo. Peço o endereço do único nome de bar que lembrava e fico 15 minutos parada no meio da rua esperando minha irmã pesquisar na internet, fuçar mapas, pedir informações para outras pessoas e consultar até a Nasa. E meus amigos esperando pacientemente e tirando sarro de tudo. Eu, tensa pra caralho.

Cena 8 - Minha irmã liga de volta e diz que temos de dar a volta no cemitério - sim, estávamos perto de um cemitério gigantesco - para chegar ao tal bar. Quando subimos tudo, cruzando com baratas, transeuntes parecidos saídos dos anos 80,vendedores de cachorro quente, buzinas e faróis, e chegamos a quase meia volta, resolvemos nos certificar de que estávamos certos. Eis que descobrimos que a rua ficava justamente do lado oposto ao que estávamos andando.

Cena 9 - Ao voltarmos todo o caminho descobrimos, atônitos, que o tal bar estava simplesmente a pouco mais de 30 metros da esquina onde ficamos parados por 15 minutos, consultando mapas, bússolas e o diabo a quatro. Chegamos ao tal bar e é lógico, estava lotado, abafado e tudo que se salvava era uma roda de choro, mas choro com calor e cerveja quente também ia ser triste demais, de chorar mesmo.

Cena 10 - Pegamos um táxi, porque nessa hora já não rolava mais nenhum bumba, quiçá um metrô e paramos num boteco a poucas quadras da minha casa, felizes da vida por termos conseguido sentar numa mesa, descansar a carcaça depois de tantas andanças e degustar uma geladinha, com um colarinho bem feito. E eu, feliz da vida, porque meus anjos nem ligaram de eu ter sido uma péssima anfitriã, que os fez dar a volta ao mundo para tomar uma cerveja do lado de onde estávamos. Na mesa, fizemos uma espécie de divã coletivo e acabamos rindo de nossa aventura e das desventuras da semana, ficamos imitando os nordestinos que mexeram comigo e com a Taty no ponto de ônibus, falamos amenidades e curiosidades sobre nossos cachorros, trocamos confidências e besteiras. Era tudo que eu precisava. O apreço não tem preço. Amigo é pra essas coisas.

2 comentários:

Ronaldo Faria disse...

1. Anjos existem? Talvez. Mas acho que você é um(a).
2. Amigo é o que se leva desse nosso nada, dessas relações extemporâneas, dessa vida que veio e, um dia, se esvairá.
3. Chefe só serve pra encher o saco. Mas, até sermos nossos próprios, agüentemos. Até termos nossa banda própria e turnês (você) ou uma pousada à beira-mar (eu).
4. Nada como uma cerveja gela, uma mesa de boteco, uma roda de conversa livre, sem os "gênios", "senhores do mundo" ou "dinossauros da sapiência".
5. Nordestino é dez! Que o diga eu: carioca, filho de sergipano com baiana...
Beijos. Carinho. Cuide-se... E segure a onda. Você pode. Você consegue. Você é!
Ronaldo Faria

Arnaldo disse...

Menina,

Bem vinda a São Paulo, com suas baratas e seus nordestinos. A São Paulo que eu amo, mas não me animo mais a morar lá. Enfim, insista na cidade.