10 setembro, 2007

Trilogia Musical


Sábado: Guinga e UFRJazz.
Domingo: Luís Melodia
Segunda: Filme Brasileireinho.
O que mais eu posso querer?
Ouçam música. Música é comunhão. Música é a única salvação possível, é o que penso.
Pra quem acha que o Brasil é só essa bandalheira que está aí, ouçam Guinga. No sábado, aqui em São Paulo, ele deu um show não apenas de música mas de humildade. Tocando ao lado dos meninos da UFRJazz, ele desfilou suas pérolas (Desavença, Noturna, Dichavado, Choro pro Zé), errou em público, pediu desculpas, disse que tem medo do palco, deixou os meninos, atônitos e felizes por estarem tocando com um mestre, totalmente à vontade. Mostrou que música não é só virtuosismo, técnica, mas um estilo de vida, um modo de pensar.É coração.
Pra quem não conhece, como eu não conhecia, vale a pena pesquisar sobre a UFRJazz. Uma orquestra formada pelo maestro José Rua, com músicos estudantes da URFJ, e que já ganhou até Prêmio Tim de melhor CD. Um repertório da pesada é o que eles fazem. Pesquisaram só compositores do Rio de Janeiro ou que têm alguma ligação com a cidade e estes compositores cederam suas músicas para eles. Estão nesta nata nomes como Guinga, Wagner Tiso, Jovino Santos Neto e Gilson Peranzeta. Em um país de Renans Calheiros, e outras corjas mais, de Tati Quebra Barracos, Calypsos, e outras porcarias mais, saibam os pessimistas que tem gente jovem tocando música boa, se preocupando em pesquisar as raízes de nosso som. E tem compositores do porte de Guinga dispostos a apoiar os novos talentos. O que vi e ouvi no teatro do SESC Santana foi um show de humanidade. Uma comunhão. Um som orgânico. Não aqueles shows de CD, em que tudo dá tão certo que parece artificial, mas seres humanos que se reúnem para tocar, sentir o som, consertar os erros, improvisar e ser feliz. Isso é música.No domingo, mais som de qualidade: Luís Melodia, com seu timbre delicioso e único, cantou,o que há de mais fino do samba: Jamelão, Cartola, Geraldo Pereira, e ele mesmo. Pena não ter aproveitado o microfone para anunciar o nome das músicas e dos compositores, pra mim algo imperdoável, inadimissível, já que o cara tá ganhando grana em cima destes mestres e fazendo discurso de que está resgatando o samba de raiz, em nome de seus velhos tempos de Morro de São CArlos. Só o perdôo um pouco porque realmente ouvir Tive sim, "O neguinho gostou da filha da da madame, aquela que nós chamos de sinhá", ou "SE alguém perguntgar por mim, diz que fui por aí, levando um violão debaixo do braço", na voz dele, é de morrer de arrepiar. E também porque o time que o estava acompanhando era de primeira, incluindo o trompete de Silvério Pontes, o saxofone de Humberto Araújo, o sete cordas de Charles do Violão e o seis cordas do Renato Piau.
E pra fechar a minha trilogia musical, o filme Brasileirinho, de Mika Kaurismäki. O filme é OBRIGATÓRIO para qualquer brasileiro que se preze, principalmente se for músico ou se gostar de música. Não dá pra não se emocionar e não achar que o Brasil é o melhor país do mundo. Guinga, Paulo Moura, Trio Madeira Brasil, Joel Nascimento, que mesmo surdo para algumas freqüências agudas, desistiu do piano, mas não do bandolim. E continua o time: Ronaldo do Bandolim, Hamilton de HOlanda, Marcos Suzano, Jorginho do Pandeiro (irmão de Dino Sete Cordas), Yamandú Costa, Carlinhos Leite, outros tantos bambas....A história do choro. A história do Brasil. Os meninos de Cordeiro, cidade do Estado do Rio de Janeiro, que viajam horas, todos os dias, para ir à capital em busca de ensinamentos musicais com os mestres Maurício Carrilho, Celso Leite e Luciana Rabello. Gente, tem muita gente boa no Brasil. Muita gente que quer saber de choro, de samba, que faz disso sua devoção.Gente que acredita na nossa música.
Eu acho que ainda estou viva por conta da música. Ela é meu ópio, meu vício, meu alicerce. Experimentem. Quem ainda não ouviu falar de todos estes caras que eu citei aqui, experimente. Não deixe de conferir. Não se contente só com o que toca no rádio. Ali não tem música nenhuma. O Brasil não conhece o Brasil. Se conhecesse, teria mais esperança. Não dá pra achar que tudo é uma merda, uma bandalheira, um túnel sem luz no final, quando ouvimos Pixinguinha, quando vemos o tanto de chorões, jovens, da velha guarda, enfim, como temos talentos de nome e ainda anônimos por esse país afora. Não dá pra imaginar que tudo é uma merda quando ouvimos uma letra dessas (aproveitem e pesquisem a música, igualmente maravilhosa). O Guinga fez a música para a filha que, vivia doente, e num domingo passou umdia maravilhoso em uma fazenda, vendendo saúde. Tocou a música e contou a história para o mestre Paulo César Pinheiro, e deu nisso aqui:


Senhorinha
(Guinga e Paulo César Pinheiro)

Senhorinha
Moça de fazenda antiga, prenda minha
Gosta de passear de chapéu, sombrinha
Como quem fugiu de uma modinha

Sinhazinha
No balanço da cadeira de palhinha
Gosta de trançar seu retrós de linha
Como quem parece que adivinha (amor)

Será que ela quer casar
Será que eu vou casar com ela
Será que vai ser numa capela
De casa de andorinha

Princesinha
Moça dos contos de amor da carochinha
Gosta de brincar de fada-madrinha
Como quem quer ser minha rainha

Sinhá mocinha
Com seu brinco e seu colar de água-marinha
Gosta de me olhar da casa vizinha
Como quem me quer na camarinha (amor)

Será que eu vou subir no altar
Será que irei nos braços dela
Será que vai ser essa donzela
A musa desse trovador

Ó prenda minha
Ó meu amor
Se torne a minha senhorinha

3 comentários:

Bruno Ribeiro disse...

Que maravilha! Sabe tudo! Enquanto houver música, o Brasil está salvo!

Marina F. disse...

Ô coisa linda! A-do-ro. beijo, querida.

Marina F. disse...

Lili, adorei seu comentário. É verdade, estamos muito no mesmo barco. Mas eu preciso pular pra fora dele. Eu quero amar a estrada, e não o abismo.
Também gosto muito de ti, amiga.
beijo.