Um homem com uma dor é mais elegante, já diria Leminski. Ouvindo Nana Caymmi eu diria que uma voz com uma dor é muito mais elegante. Não sei se Nana se dói quando canta, mas a impressão que tenho, toda vez que a ouço, é que ela tem o privilégio de poder chorar todos os amores do mundo na sua voz, uma voz visceral, que explode, mas não grita, que enche o ambiente, mas sempre impregnada de um veludo grave de contralto que não agride, acaricia. Algo diferente de tudo. Único. Saído da forma única de que foram feitos todos os Caymmi, com suas vozes inconfundíveis com gosto de mar e maciez das areias da Bahia.
Com uns 15 anos eu já chorava ouvindo a Nana cantando boleros, com minha alma de velha, ou com minha memória afetiva de outras vidas? Vai saber. Com os meus 19, 20 anos, consegui convencer um amigo que dizia não gostar da Nana ao apresentar-lhe sua versão para "Siameses", música de João Bosco, faixa do álbum do compositor chamada "Comissão de frente". Com essa música a voz de Nana ficou tatuada na minha construção musical. Tive outros impactos fortíssimos com esta voz. Nada mais belo que "Medo de Amar", de Vinícius de Moraes, cantado por Nana. Casamento perfeito entre uma voz de diva e o talento de um compositor e arranjador mestre como Cristóvão Bastos em "Resposta ao Tempo". Todo dia, quando começava a minissérie "Hilda Furacão", meu coração disparava quando ela começava: "Batidas na porta da frente, é o tempo..."
Ontem assisti Nana pela segunda vez ao vivo, no SESC Vila Mariana. O típico show que a gente vai para ouvir exatamente mais do mesmo, mais do mesmo e saboroso repertório, e descobre que outras tantas pessoas estão ali para ouvirem exatamente a mesma coisa, e se transportarem para outros momentos, instantes, cheiros, cores, histórias de vida, emoções. Sim, porque nem só de novidade vive a música, e sim de fazer trilha enquanto a gente vive. Estava lá a diva às avessas, bocuda como sempre, falando o que lhe vinha à cabeça, contando histórias dos netos, se emocionando ao falar do pai, reclamando dos leques de renda, que não fazem tanto vento e que não a salvam do calor insuportável do palco. Estava lá a diva desfilando mais do mesmo delicioso repertório corta pulsos: "ah, eu não te amo porque quero, ah se eu pudesse esqueceria" ou "onde você estiver, não se esqueça de mim". E eu iria cobrar meu ingresso de volta se ela não cantasse "Só louco": uma música deste tamaninho, com uma mera estrofe, mas que é de se ouvir rezando, ou chorando, ou sentindo saudade de num sei o que.
Saí me perguntando se emoção, elegância, se bolero e samba canção, se isso está mesmo fora de moda, ou se é o mundo que ficou menos elegante. O que será de nós quando não mais houver Nana Caymmi?
Nas Brechas
Um espaço para escritos e divagações e música...
09 Janeiro, 2012
11 Dezembro, 2011
As canções
O novo filme de Eduardo Coutinho, "As Canções" é daqueles bem despretensiosos, e talvez por soar como uma continuidade do belíssimo "Jogo de Cena", utilizando-se da mesmíssima fórmula, pareça um pouco mais do mesmo. Saí do cinema com um certo ar de insatisfação, como se esperasse muito, mas muito mais dos personagens anônimos que ali cantaram suas histórias. Percebi, porém, que o que me atraiu até aquela sala escura para de novo conferir o trabalho de Coutinho não foi o filme em si, mas o assunto, a possibilidade de ver na música uma janela da alma das pessoas. A história toda contida nos 18 personagens que passam por aquela cadeira, em frente do entrevistador, é aquela em que acredito desde que me conheço por gente: que a música é onipresente e que por meio dela podemos viver e reviver momentos plenos, décadas, séculos inteiros, cheiros, cores, sensações, emoções, um toque, um gesto, um sentimento.
Pela música é possível nos reconhecermos. Um dos personagens do filme, o Queimado, diz bem isso: "como uma pessoa consegue lembrar de algo se ela não tem uma música"? E é engraçado que não precisa ser cantor, músico, artista, poeta, para saber disso. A cada personagem, o mesmo ritual na hora de cantar. Uma tossidinha para tirar o pigarro da garganta, os olhos se fecham, a voz se imposta, o semblante muda como se baixasse um santo, um personagem, um outro ser dentro de cada uma daquelas pessoas e a música emergisse, não importando se desafinada, ou bem interpretada, ou uma cópia do cantor ou cantora, com seus trejeitos e vibratos e afetações. Naquele momento mergulhamos na experiência da canção, sem nos preocuparmos com o ridículo.
Os motivos pelos quais gostamos de uma música, ou nos apaixonamos por ela, ou a elegemos como "a música de nossas vidas"podem ser vários, e, na maioria das vezes, isso passa longe do acorde bem construído, do verso lapidado, da originalidade, da contemporaneidade, ou seja lá qual seja o critério estético ou artístico. Às vezes amamos uma canção simplesmente porque alguém a quem amamos muito gostava dela, ou porque foi trilha sonora de um momento de que sentimos saudade, ou nos acompanhou durante um momento difícil. A primeira "música" de que me lembro eram os sons das cordas do violão sendo afinadas pelo meu pai. Toda vez que ele pegava o violão a primeira coisa que fazia era sempre a mesma sequëncia de notas e eu me perguntava: "por que ele sempre toca essa mesma musiquinha?". Depois fui descobrir que a "musiquinha"eram as cordas do instrumento, mi - la-re-sol-si-mi, sendo afinadas uma a uma...Quando assisti a uma entrevista da Elis Regina dizendo que foi cantar porque tinha muito som dentro dela eu me identifiquei pacas porque, desde bem pequena, lembro de ter sempre uma música ou um som dentro de mim, me acompanhando em cada momento do meu dia, nos bons e nos ruins. E esses sons podem ser desconhecidos, criações minhas, ou músicas que ouvi alguém cantando...Sei de canções inteiras que não faço ideia do nome, nem do autor e nem como aprendi. Só sei que as sei, talvez de tanto ouvir minha mãe cantando.
Meu nome é nome de música, então poderia até considerar "Lígia"a música da minha vida. Mas acho mais justo dizer que tenho "músicas da minha vida", pois a cada momento vivido uma nova trilha se apresenta. Se fosse cantar no filme do Coutinho, não saberia que música escolher. Talvez algumas dezenas de músicas do Jobim, outras tantas do Chico, "Canteiros", do Fagner, uma das primeiras música que aprendi a cantar quando era criança...Ou alguma do meu pai. Fora as canções minhas que nem sei que cara têm, mas que sinto, estão aprisionadas em algum lugar dentro de mim.
Falando de estética, cinema, o filme do Coutinho não é lá O Filme. Perto de "Jogo de Cena", soa mais como uma daquelas continuações de filmes do tipo "o retorno" ou "a missão" que a gente sempre fica achando que devia ter parado no primeiro. De qualquer forma, o documentário só evidencia uma certeza: a de que, por mais insensível, por mais desligado de música que alguém seja, sempre, sempre mesmo haverá uma canção que fará com que este alguém feche os olhos e se transporte a um mundo imaginário ou já vivido, como uma espécie de máquina do tempo.
Pela música é possível nos reconhecermos. Um dos personagens do filme, o Queimado, diz bem isso: "como uma pessoa consegue lembrar de algo se ela não tem uma música"? E é engraçado que não precisa ser cantor, músico, artista, poeta, para saber disso. A cada personagem, o mesmo ritual na hora de cantar. Uma tossidinha para tirar o pigarro da garganta, os olhos se fecham, a voz se imposta, o semblante muda como se baixasse um santo, um personagem, um outro ser dentro de cada uma daquelas pessoas e a música emergisse, não importando se desafinada, ou bem interpretada, ou uma cópia do cantor ou cantora, com seus trejeitos e vibratos e afetações. Naquele momento mergulhamos na experiência da canção, sem nos preocuparmos com o ridículo.
Os motivos pelos quais gostamos de uma música, ou nos apaixonamos por ela, ou a elegemos como "a música de nossas vidas"podem ser vários, e, na maioria das vezes, isso passa longe do acorde bem construído, do verso lapidado, da originalidade, da contemporaneidade, ou seja lá qual seja o critério estético ou artístico. Às vezes amamos uma canção simplesmente porque alguém a quem amamos muito gostava dela, ou porque foi trilha sonora de um momento de que sentimos saudade, ou nos acompanhou durante um momento difícil. A primeira "música" de que me lembro eram os sons das cordas do violão sendo afinadas pelo meu pai. Toda vez que ele pegava o violão a primeira coisa que fazia era sempre a mesma sequëncia de notas e eu me perguntava: "por que ele sempre toca essa mesma musiquinha?". Depois fui descobrir que a "musiquinha"eram as cordas do instrumento, mi - la-re-sol-si-mi, sendo afinadas uma a uma...Quando assisti a uma entrevista da Elis Regina dizendo que foi cantar porque tinha muito som dentro dela eu me identifiquei pacas porque, desde bem pequena, lembro de ter sempre uma música ou um som dentro de mim, me acompanhando em cada momento do meu dia, nos bons e nos ruins. E esses sons podem ser desconhecidos, criações minhas, ou músicas que ouvi alguém cantando...Sei de canções inteiras que não faço ideia do nome, nem do autor e nem como aprendi. Só sei que as sei, talvez de tanto ouvir minha mãe cantando.
Meu nome é nome de música, então poderia até considerar "Lígia"a música da minha vida. Mas acho mais justo dizer que tenho "músicas da minha vida", pois a cada momento vivido uma nova trilha se apresenta. Se fosse cantar no filme do Coutinho, não saberia que música escolher. Talvez algumas dezenas de músicas do Jobim, outras tantas do Chico, "Canteiros", do Fagner, uma das primeiras música que aprendi a cantar quando era criança...Ou alguma do meu pai. Fora as canções minhas que nem sei que cara têm, mas que sinto, estão aprisionadas em algum lugar dentro de mim.
Falando de estética, cinema, o filme do Coutinho não é lá O Filme. Perto de "Jogo de Cena", soa mais como uma daquelas continuações de filmes do tipo "o retorno" ou "a missão" que a gente sempre fica achando que devia ter parado no primeiro. De qualquer forma, o documentário só evidencia uma certeza: a de que, por mais insensível, por mais desligado de música que alguém seja, sempre, sempre mesmo haverá uma canção que fará com que este alguém feche os olhos e se transporte a um mundo imaginário ou já vivido, como uma espécie de máquina do tempo.
27 Novembro, 2011
Falando de música
Ouvi de alguém muito mais do que especial que eu deveria voltar a escrever, algo de que gosto muito, e que deveria escrever mais sobre música, algo que amo mais que tudo na vida. Cá estou eu, de volta a este latifúndio tão abandonado, tentando desenferrujar os dedos e os pensamentos.Devo confessar que fiquei horas tentando mudar o layout do blog, criar um blog novo, para começar com um certo frescor, mesmo porque por aqui já publiquei de tudo, todo tipo de divagação, e um bocado de música também. Mas confesso que estou presa às tais brechas que aqui me trouxeram. Não consigo batizar meu espacinho de qualquer outro nome. Talvez daqui a pouco venha uma inspiração e eu modernize, mude a cor de fundo, a foto do Miró, que eu tanto gosto, e até o título, mas por enquanto vou falando por aqui mesmo.
Começo, ou melhor, recomeço, falando de duas figuras do samba. As duas primeiras me vieram à mente depois de ter assistido ao show Feliz aquele que sabe sofrer, uma homenagem a Assis Valente e Nelson Cavaquinho, no SESC Pompeia. Ambos compositores completariam 100 anos em 2011. Não vou falar do show em si - bonito, elegante, mas talvez um tanto quanto cerebral demais, talvez pela leitura "paulista" de compositores cariocas, talvez pelos arranjos de cordas, dando um tom de "samba de teatro municipal" - mas sim das figuras citadas. Eu sou do tipo que primeiro cantarolo a música, depois aprendo a letra e só depois, bem depois, é que vou dar nome as bois. Por isso, acabei descobrindo que conhecia muito mais da obra de Assis e Nelson do que imaginava. E descobri também que, "Moreno fez bobagem" e "Brasil Pandeiro" à parte, sou muito mais o marginal da Mangueira, que andava com mendigos e não estava muito aí em registrar seus sambas, com seu jeito tosco de cantar e tocar violão, do que o autor de "Boas Festas" que tentou se matar inúmeras vezes e, numa delas, pulou do alto do Corcovado, ficando preso num galho de árvore. Nem melhor, nem pior, ambos são gênios, mas meu coração salta mais forte quando ouço "Rugas" ou "Tive sim". Luiz Tatit, que além de cantar no show, foi uma espécie de professor, fazendo comentários das obras dos dois sambistas, fez uma análise que achei bastante interessante: Assis Valente escondia a tristeza e cantava a alegria e, pra conseguir essa façanha, focava no externo. Assim, seus sambas são repletos de consoantes, falam do recenseamento de 1940, discorrem fatos em frases enormes, que só mesmo a Carmem Miranda conseguiria cantar - "chegou a hora dessa gente bronzeada mostrar seu valor"...Já Nelson jorrava o sentimento em vogais longas, sentidas- "o soooooooooooooooollllllllllll há de brilhar mais uma vez"! Nunca tinha pensado desta forma. Um guardou para si todas as vogais e acabou morrendo depois de tomar formicida. O outro prolongou as notas em Rugas, Luzes Negras, mas tinha sede de vida e medo de ser esquecido: "me dê as flores em vida".
Assinar:
Postagens (Atom)