03 março, 2007

À beira de um naufrágio


A trilha sonora vai ficando tensa, bem ao estilo mais apocalíptico de Carmina Burana e em volta tudo que existe é mar, mar e mar, e ondas e mais ondas, uma sobre as outras, suplantando as outras, afogando as outras, e o céu se fecha cada vez mais em sua escuridão, que só se ilumina nos riscos tortuosos dos relâmpagos, ao ritmo dos trovões. O que se achava ser uma ilhota, lá adiante, ficou adiante demais. É tanta água, tanta onda, tanto medo que até o coração está afogado, inundado, como as lágrimas que descem agora, rápidas cachoeiras, jorrando o medo, jorrando a angústia, jorrando a decepção, jorrando a dúvida, jorrando um desespero, jorrando até mesmo o julgamento cruel de si mesmo achando tanta cachoeira e tanta inundação da alma ao mesmo tão vazia em seu sentido...De que adianta lutar contra a realidade se o que há em volta é mar e somente mar, e o que existe, debaixo dos pés, fora eles, é apenas uma pequena superfície, como um pedaço de madeira deixado de um velho casco de um navio já naufragado...Um vestígio, uma sombra de algo que se foi e na qual ainda se pode e deve agarrar para não ser sugado pelo mar das circunstâncias e das dificuldades...Uma vontade súbita de abraçar alguém, um estranho que seja, e jorrar a cachoeira de medo e de carência em cima desse alguém, e pedir para não ser mais um náufrago de si próprio. Com o balanço do mar de emoções a alma fica enjoada, a cabeça confusa, os movimentos sôfregos, cambaleantes, as mãos trêmulas, como que para acompanhar o medo e o frio da alma, o frio de se ver só, o frio de não ter certeza de nada, nem de que se está ao leste, nem a oeste, nem que se vai morrer ou vai chegar a uma ilha. Numa velha bolsa de viagem, as fotografias, algumas coloridas, mas as mais dramáticas são as que têm apenas duas cores, como a memória, que com o tempo começa a apagar as coisas, os detalhes dos rostos, e a deixar tudo ao mesmo tempo ainda mais bonito, mais comovente, mais irresistivelmente tentador de se viver pela segunda vez...
Com o passar das ondas e mais ondas de emoções desencontradas, vindas de todos os lados, o cansaço chega e com ele a certeza de que é hora de dormir novamente, para, quem sabe, no dia seguinte, acordar e ver que o céu está agora azul, o sol está radiante e, a poucos metros, está uma ilha e que, pisando nela, está lá a sua vida, de volta, intacta, inteirinha, nos mínimos detalhes e pessoas e sentimentos, tal qual foi deixada.
A cachoeira continua a jorrar, e jorrar, e descer morro abaixo, inundando tudo...Para não se afogar é preciso ficar na pontinha dos pés, com o corpo todo esticado, num ritual de sacrifício por apenas um pouco de ar.
É difícil ser guerreiro, especialmente quando a maior guerra é entender o que, realmente, significa ser um vitorioso.

2 comentários:

Bruno Ribeiro disse...

Iemanjá te cuida, Ligia. Odoyá, omi ô!

Ronaldo Faria disse...

Como ex-filho de santo, batizado e confirmado, digo que a senhora das cachoeiras é Nanã Buruquê. E Ela chora muito, de verdade. Verte suas lágrimas pelos homens e pela vida. Por aqueles que choram, como ela, por aqueles que sorriem diante da água fria que desce pelos corpos, molhando pêlos e poros. As lágrimas nada mais são do que descobertas, novos rumos, esquinas a se virar. Nem sempre são só de tristeza. São nossa maior emoção. Nossa forma de dizer: "Fica, não vai, não muda, não me deixa". Hoje, também chorei, internamente, na cama, junto à amada. E me redescobri, me refiz, vi que há muito a andar, muitas curvas a dobrar, caminhos e descaminhos a cruzar. Cuide-se, sempre. E viva e reviva. Seja. Mulher, sonho e descoberta. Sempre... Cuide-se. Cuide de você e das tuas emoções. Das tuas canções.
E beijos na testa. Muitos. Sempre.
Do "sui generis", Ronaldo Faria