12 agosto, 2007

Apenas um rapaz de quase 60 anos


Meu pai é um moço de quase 60 anos. Sim, moço. Quando eu era mais nova, achava que quando a pessoa chega aos 60 anos já é velho. Até com relação aos outros, eu me pego dizendo "aquele senhor de 60 anos". Mas não consigo ver um homem como meu pai como velho. Um cara que nunca fica mal na fotografia, no sentido figurado e literal. Que na maior parte do tempo está sempre sorrindo, apesar de chorar muito por dentro. Que anda de bicicleta a cidade inteira, pega no violão e na enxada, cuida pessoalmente de cada detalhe da casa, dos cachorros, do almoço. Sim, ele é bem moderno esse rapaz. Cozinha todos os dias no almoço e trocou minhas fraldas e as da minha irmã enquanto a minha mãe trabalhava, quando éramos crianças. Talvez por isso eu tenha uma proximidade tão grande com ele. E outra que, além de me dar a vida, ele me deu a música, a herança mais preciosa que alguém pode deixar a alguém. Com ele aprendi a cantar, e aos 2 anos já fazia isso porque a paixão dele por som é tão grande que acho que ficou impressa no meu DNA. Não dava pra eu gostar de outra coisa. Foi com meu pai que eu aprendi a ouvir samba, a bater um tamborim e só não aprendi violão porque sou preguiçosa e também porque brigávamos feito cão e gato quando ele tentava me ensinar. Talvez porque eu seja mais acelerada e o meu pai é do tipo de pessoa que a gente tem que parar para ouvir, parar tudo o que está fazendo. Ele vive num outro tempo, o tempo da delicadeza, da poesia. Neste mundo em que dirigimos falando ao celular ou almoçamos falando de negócios, é muito difícil pro moço Armando Moreli se sentir à vontade. Isso só acontece quando ele tem em volta de si uma roda de gente, quando magnetiza a todos com seu cavaco ou violão. Ali ele é mais ele e o resto é resto. Pro meu pai aplausos sinceros e o afago dos amigos é o suficiente.
Tenho com ele uma relação engraçada. Quando ele está com saudades me liga me xingando por ter sumido...Eu também não sou muito de abraços e beijos, mas nossas trocas de olhares quando estamos cantando juntos são impagáveis e irreproduzíveis. O senso de humor dele e o talento para imitações, a forma como observa o mundo e as pessoas, tudo é muito parecido comigo e, quando estamos distantes, às vezes nos telefonamos ou guardamos as observações comuns do dia-a-dia só para contarmos um ao outro ou apresentarmos no nosso faz-de-conta doméstico. Nos últimos tempos ele tem dito que eu ando moderna demais para ouvir música; eu não me conformo dele não curtir as minhas "experimentações", sendo ele meu ídolo musical. Mas tudo bem, apesar das brigas, a gente se respeita e se admira muito.
Acho que à medida em que a gente vai atingindo uma certa idade descobre que, além de ser filha, a gente também é um pouco mãe do pai da gente. Isso em mim tem sido evidente, na maneira como fico me doendo com as suas dores, como fico irritada com as suas inseguranças e com seu medo de ser quem é, com a maneira como tento fazê-lo reconhecer a si mesmo como alguém capaz. Que bom que esse moço continua nesse mundo para cuidar de mim, porque eu ainda preciso muito dele. E, minha ousadia me faz achar que ele também precisa de mim, nem que seja para tirar um sarro, cantar um samba ou brigar por um ponto de vista musical.
Demorou, mas aos 60 anos meu pai está mostrando suas músicas, e depois de muita insistência nossa, principalmente minha, está gravando um CD, que, espero, saia logo. Às vezes o pego triste da vida, deprimido, esperando que o mundo venha buscá-lo para tocar, e me revolto por achar que ele é que deveria abraçar o mundo. Mas, na poesia dele e no desconforto que ele parece sentir em relação a esse mundo que não tem tem 5 minutos para perder com conversa, eu acho que ele é sim, muito feliz.
Ao menos o sorriso dele continua muito bonito.
Em homenagem a esse moço, publico aqui uma das "letrinhas" dele. Algo assim bem dor de cotovelo, provavelmente curtida durante uma rusga com a minha mãe. Coisa linda!

Sou sua fã, Armandinho...

Jogado do Lado

Vejo o teu espanto ao ver meu pranto e ouvir meu canto
nos meus anseios, nos meus ponteios
num violão já desafinado
no meu clamor, já quase calado
na minha voz já tristonha e rouca
que em atitude estranha e louca
gritando ao vento, por todos lados
minhas virtudes e os meus pecados
virando copo, dizendo asneira e a noite inteira embriagado
Não se entristeça que as suas queixas não vão me mudar
nem me levar para os braços teus
foi você que assim me quis
pra lhe agradar assim me fiz
agora vá, vá pelo amor de Deus
Não, não reclame, vai se expor ao vexame
faça de conta que nunca me viu
Deixe-me só com esse embrulho
e segure esse orgulho que por nada no mundo caiu
Estou jogado do lado, mas não enterrado
estou do jeitinho que você pediu

4 comentários:

Bruno Ribeiro disse...

Que maravilha! Ele também é meu pai. Meu pai musical, de certa forma. Beijos!

Ronaldo Faria disse...

Lindo. Cuide-se e reserve um CD dela pra mim.
Ronaldo Faria

le disse...

O pai também é meu... como diria o outro.. "Meu pai é foda!" rsrs

Anônimo disse...

Que lindo...tô emocionadíssima. Amei.
Também quero um CD!
beijos pra você e pro seu pai.
Má Franco