27 dezembro, 2007

Balanço inevitável

Continuo como o personagem da música "Lígia", que parece ter sido feita mesmo para mim...Não gosto de chuva, não gosto de sol. Pareço nunca estar contente com nada. Nada é o bastante nunca. Sempre o que estava aqui, não está mais. Foi para ali, ou para acolá. E eu andando, procurando, correndo atrás do nada, daquilo que nem eu mesma sei. Exigente sempre com as circunstâncias, com os contextos e, mais ainda, comigo mesma. Tudo tem que ser sempre o melhor, o insuperável, inclusive eu. É, mas não sou.
Nesta hora, em que o calendário fecha um novo ciclo, um ciclo inventado, diga-se de passagem, parece que a gente se vê obrigado a também fechar as contas, acertar tudo na cabeça da gente para reiniciar um pseudo novo ciclo. Então, cá estou eu, enxergando que não sou insuperável e nem a melhor do mundo, e tentando me acostumar com a idéia de que não há problema nenhum com isso. Mas quanto é difícil...Porque aprendi que na vida temos que ser a melhor em tudo. Funciono movida à paixão, mas não me avisaram com antecedência que a gente nem sempre consegue se apaixonar por tudo. Há, inclusive, quem passe a vida toda sem nenhuma paixão...
Neste ano, descobri que sou mais uma, e não A. Descobri também, que talvez nunca chegue a ser A, mas que terei que me acostumar com essa idéia e tentar ser feliz desta forma. Descobri que, apesar de milhões de tentativas, não, eu AINDA não me encontrei. Ainda tenho uma vontade incontrolável de pular, mais uma vez, para outro galho profissional. E isso me corrói por dentro. Por outro lado, descobri que, apesar de minhas aspirações poéticas, quero sim ter um forno microondas, um fogão novo, uma cama de casal bem gostosa, ter um dinheirinho para viajar, para tomar cerveja com os amigos e sim, quero casar e ter filhos como outra criatura qualquer. Não serei revolucionária, ousada e moderníssima "super mulher profissional" como minha mãe sonhava. Sim, as mães geralmente sonham bons casamentos para as filhas. A minha sonhou que eu fosse grande e que não precisasse dessas coisas banais da vida. Mas não deu...Sou normal feito todo mundo. Quero apenas um trabalho que não me encha tanto o saco e me dê um mínimo de realização e grana, tempo livre para cantar, e viver feito todo mundo. Sei que não serei uma baita repórter que vai ganhar o Prêmio Esso ou Pulitzer (é assim que escreve??), tampouco serei a melhor programadora cultural de São Paulo. Eu só queria que, ainda assim, ficasse tudo bem dentro de mim...
Descobri também que não vou nunca seguir a música como profissão, mas não posso viver sem música. E estou vivendo, não sei como. Aliás, estou triste por estar trabalhando com música e perdendo o tesão de cantar e ouvir música...Apesar de trabalhar programando atividades musicais, foi o ano em que menos toquei e cantei em toda a minha vida. Nem no banheiro. Nada.
Em compensção, li muito mais do que em todos os anos anteriores. Bati meu recorde. Nem sei quantos livros. Ao menos a solidão de São Paulo me serviu de algo útil, além de ficar fazendo elocubrações e entrando em desespero com minhas crises existenciais-profissionais diárias. Aprendi também o que é dança contemporânea e assisti mais peças de teatro que havia visto em toda a minha existência. E descobri também que muitas delas podem ser um saco. E são!
Pela primeira vez desfilei numa escola de samba. E em carro alegórico!!!!!!O único senão é que a escola de samba caiu do primeiro para o segundo grupo, mas garanto que não foi pela minha performance!
Neste ano senti o sabor amargo de ficar longe de quem eu amo, em vários sentidos: da distância feita de quilômetros, à distância construída em cima de mágoas, de teimosias, de falta de maturidade...Senti abandono, senti ciúmes, senti dor, senti saudade. Foram meses sofridos, que deixaram marcas, que aos poucos estou tentando apagar, e acho que estou conseguindo.
Também no ano que passou, resolvi enterrar de vez histórias do passado, que agora são somente isso mesmo: belas histórias para serem folheadas de vez em quando no livro da memória. Pra frente é que se anda. Eu já vinha andando pra frente faz tempo, mas agora parece que eu resolvi guardar mesmo este livro num arquivo pra olhar bem de vez em quando mesmo. AS lembranças já não mais me perturbam.
Neste ano, comecei a morar no melhor apartamento que já morei: amplo, ensolarado, arejado, com dois quartos, uma sala que dá para dançar gafieira e uma janela que dá pra ver todos os arranha-céus do cenário típico paulistano. E, quase aos 30, estou com uma necessidade absurda de ter o meu canto, comprar mesmo um apartamento só pra mim.
Em 2007 também mudei meu jeito de vestir. Desci dos saltos altos para caminhar melhor pelas ruas, e comecei a experimentar umas combinações mais, digamos, alternativas. Afinal, não há melhor lugar para ousar do que nas ruas de Sampa. Aqui você pode colocar um abacaxi na cabeça que ninguém te olha.
Podia ter feito muitos novos amigos, mas não fiz. Mesmo assim, apareceram alguns anjos da guarda bem bacanas. E quando não apareceram, aproveitei para ir ao cinema sozinha mesmo.
Podia ter conhecido muitos novos lugares, mas também não o fiz. Acho que tenho dificuldade para me abrir a novos espaços e lugares, especialmente assim, do tamanho e do jeitão de São Paulo. Mas ainda chego lá.
Em 2007 ganhei uma parceria linda em uma música. "Chuva na praia", minha, do João e do meu amigo Bruno Ribeiro, é uma das coisas de que mais me orgulho nessa vida, apesar de ser mais deles do que minha. Assim como "De onde vem a canção", minha com meu pai, ficou belíssima, e sem dúvida foi um momento mágico em 2007.
Agora, muitas letras de música continuam aqui, dormindo dentro de mim, praticamente em coma, porque não consigo acordá-las nem a pauladas. As palavras gritam para sair, mas não saem. Estão encruadas, ou talvez nem estejam lá dentro. TAlvez seja só a minha vontade que estejam. A mesma vontade que faz com que eu continue mantendo este espaço aqui, mesmo sabendo que pouco se aproveita do que estou escrevendo. Na verdade, funciona mais como uma válvula de escape mesmo, uma das poucas, aliás, que tenho tido ultimamente.
E a conclusão mais óbvia: não perdi, durante mais este ano, a minha eterna mania de reclamar de tudo, principalmente de mim mesma.
Será que consigo mudar em 2008? Prometo pensar no assunto a partir do dia 1...se é que isso não é daquelas promessas de começo de ano que a gente só faz e nunca cumpre...

Um comentário:

Bruno Ribeiro disse...

"O mar me devolveu
a paz do amor
flores brancas e alfazema
Odoyá, me deixe aqui
que a solidão é demais
sou das constelações
e ao chorar
sou a chuva na areia
eu sou filha de Yemanjá
espelho é minha praia inteira..."

Feliz 2008!