26 abril, 2008

Encontros e Despedidas



- Corre Lígia, corre, vai dar tempo
- Não, não vai, imagina! Falta um minuto. A gente precisaria de uns 10...

Ele me puxa pela mão e corre, corre, corre, ao mesmo tempo em que ri e sacoleja das passadas rápidas e também da graça que vê no meu jeito meio negativista. Ele, que é meu namorado, acredita em tudo, especialmente no que de bom está para acontecer.

A moça que dá informações turísticas em um casarão histórico na praça central de Tiradentes, cidadezinha histórica de Minas Gerais que mais parece cenário de bonecas, com suas casinhas românticas e suas de paralelepípedos, diz que o trem para São João Del Rey partirá em menos de cinco minutos. Até o local da partida seriam necessários no mínimo 10.

- Não vai dar tempo.
- Claro que vai

E foi um tal de puxar pela mão e corre, corre e corre. E dá-lhe sacolejo de rir e de correr. A mesma história se repete na vida de ambos: a emoção de viver sempre faltando menos de um minuto. Para chegar ao cinema, ao compromisso....Não gostamos de morrer de véspera.

Paisagem bucólica, o apito avisa que o trem está saindo...Bem podia ser o trenzinho caipira do Villa-Lobos!

- Corre só mais um pouquinho, tá chegando.
- Mas o trem já está saindo, olhe lá!
- Ufa! Deu tempo, não falei? - gaba-se João entre golfadas desesperadas, o fôlego quase a acabar, mas com aquele ar de “eu sabia que tudo ia dar certo”.

É sentar no banquinho do trem, simples, sem aquelas almofadas e aquelas rendas todas dos trens que aparecem nos filmes, e é um tal de tira foto para cá, tira foto para lá. Metido a artista, ele estuda os melhores ângulos para me fotografar. Coloca a cara em uma das janelas da composição, que anda vagarosa, se arrastando sobre os trilhos, e pede para que eu faça o mesmo da outra janela. Na curva, dispara o botão.

- Nossa, acho que essa foto vai ficar bem legal!
- Cuidado para não derrubar a câmera!

E a foto ficou uma pintura. Nuvens no céu, nuvens de fumaça do trem, um sorriso se esticando todo na janelinha de um dos vagões a buscar a lente. Está registrado. Pronto!

O trem foi, voltou, e nele carregamos tudo. Só não deu para levar a goiabada com queijo. Tanto procuramos goiabada com queijo e pasmem: em plenas Minas Gerais, subimos as ladeiras de Tiradentes até engrossarmos as canelas naqueles paralelepípedos e nada.

- Olha moço, tem uma pasta de goiabada com queijo aqui que é ótima.

Nos entreolhamos e resolvemos que tudo bem. Não tem tu, vai tu mesmo. Mas não era a goiabada com que havíamos sonhado.

Feijão tropeiro. Três horas para servirem. Mas o João não iria embora de Minas sem comer o prato tão falado.

Aleijadinho. Igreja, igreja, igreja. E mais algumas igrejas. Bastou!

Frio de matar, vinho e música

- Você sabe tocar Samba de Uma Nota Só?

E dá-lhe eu a fazer a barulho com uma flauta transversal, no frio da noite, num hotel no centro de Ouro Preto, tirando de ouvido as notas da segunda parte da música que, definitivamente, não tem apenas uma nota. De jeito nenhum!

Estrada Real. Um suspiro a cada curva.

- Que lindo!
- Maravilhoso!

João quase bate o carro para olhar as montanhas que emolduram a estrada próxima de Ouro Preto por onde já circulou muito do metal precioso.

- Cuidado!
- Que susto!

Tantas coisas couberam no trem dessa viagem. Era julho de 2003, um raro período de férias. Hoje estou da janela do trem, sorrindo, me olhando trabalhar. A foto é tela de fundo do meu computador.

Um comentário:

Ana disse...

Que delícia de viagem...
Saudades de Minas. Fui uma vez só, mas "não esqueço jamais".
Linda a foto!
Bjo!