25 agosto, 2009

A música deve ser maior que o músico


Trabalho é trabalho, sem dúvida alguma. Mas quando você consegue unir o útil ao agradável, sem dúvida alguma é um raro privilégio. Quando criança tive também o privilégio de ter uma excelente educação musical, não de aprender a ler partituras, mas de aprender a ouvir coisa boa. E não apenas a ouvir os cantores, mas a destrinchar as músicas, ouvir os solos, procurar ler nas capas dos discos quem tocava cada instrumento. E um pouco mais velha, na adolescência, comecei a descobrir pérolas escondidas, que ninguém repara. Dentre estas pérolas estavam músicos que são os verdadeiros pilares do que hoje se chama Música Instrumental Brasileira.
Até hoje nunca consegui tocar um instrumento direito, preguiça, indiscplina, ansiedade. Toco lá as minhas notas lá e cá na flauta, canto, mas nunca consegui me tornar uma instrumentista de verdade. Porém, graças a Deus, isso não me impediu de saber apreciar um bom solo,uma boa harmonia, um bom improviso, enfim, de ler nas entrelinhas da música. Posso não ser a maior entendida no assunto, e posso até irritar alguns músicos que acham que pra mexer com música é preciso ter estudado. Mas enfim, dentre as pérolas que descobri ainda adolescente estavam dois músicos, cujos nomes aprendi com meu pai: Roberto Sion e Hélio Delmiro. Do primeiro a primeira lembrança que eu tenho é que ele gravou solos de saxofone lindíssimos em um disco da Simone que eu adoro, que é o Ao Vivo no Canecão (a Simone de bem antes de discos com música de Natal, que ainda cantava Chico Buarque e Lupicínio Rodrigues). Eu achava lindo aquilo. Do segundo lembro que foi a primeira vez que ouvi guitarra dissociando de rock. E amei o timbre. Descobri ouvindo a minha "professora de canto" Elis Regina, nos discos com aquela formação "dream team", com César Camargo Mariano, ele fazendo aquelas intervenções maravilhosas. E mais tarde nos discos do Djavan. Isso porque eu ainda não tinha descoberto estes caras na praia de música instrumental, ou jazz brasileiro, como diziam na época.Eu ainda estava na praia da música vocal, do samba e da bossa-nova, que foram as escolas em que me criei. O jazz e a música instrumental foram escolas que eu descobri sozinha e com pessoas importantes que fui encontrando no caminho e com quem aprendi muito.
Enfim, a volta toda é pra dizer que hoje eu tive o privilégio de, de alguma maneira, ter unido essas duas feras no mesmo palco. Não bastasse isso, foi um encontro de duas gerações da música instrumental, duas maneiras totalmente diferentes de encarar e tocar: Sion, Delmiro e Sidiel Teixeira (baixo) com Vitor Cabral (bateria). A experiência, a história da música instrumental, o pessoal que colocou o ovo em pé com a energia e a juventude de quem está dando passos adiante.
Não, não foi o show mais perfeito tecnicamente que eu vi. Não foi o show mais virtuosístico que eu vi. E nem o mais ensaiado. Vejo músicos virtuoses a rodo ultimamente. Mas a energia que eu senti naquele palco, a cumplicidade, a troca de olhares dos mestres, e a vibração dos garotos por estarem ali com os "pais" foi impagável. Não teve como não me emocionar.
No final, num bate-papo de músicos com a platéia, duas coisas me marcaram. A primeira foi pela identificação que tive com o baterista Vitor Cabral, quando ele disse que era muito maluco estar ali tocando com os caras que ele tinha como ídolos desde criança. E eu achei maluco estar ali, participando de alguma forma daquele evento. E a segunda coisa, e que para mim resumiu a sensação que eu tive ao assistir esse show, de muito menos virtuosismo e perfeição e muito mais brilho no olho e energia compartilhada: foi quando o Hélio Delmiro, falando do respeito que o instrumentista tem que ter com a música e defendendo que ninguém é maior do que ninguém, disse que "A música deve ser maior que o músico". Neste sentido, e somente neste sentido, eu me dou ao direito de fazer um pouco parte deste universo, ainda que não tenha tanto conhecimento pra tanto. Sensibilidade não se ensina.

3 comentários:

Marina F. disse...

Adoro música instrumental também e tenho agora o privilégio de trabalhar com o Sion aqui na jazzinha. É o máximo mesmo.
beijos, querida!

rita disse...

Eta muié pra escrevê bonito! Eu gosto de letra, como diz seu pai, e quando vem acompanhada de emoção o sabor é ainda maior. Parabéns pelo texto!Bjs.

Vitor Cabral da disse...

Que delícia ler isso! Mais ainda por ser por acaso!
Sem dúvida, é um privilégio estar perto de pessoas que parecem tão distantes musicalmente, mas tão próximos humanamente!

Que venha outros! =)

O importante é o Coração falar e, claro, falar ao Coração!

=)

Beijão!

Vitor Cabral